quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

E então, que quereis?...

Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logode cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.

Nestes últimos vinte anos
nada de novo há no rugir das tempestades.

Não estamos alegres,é certo,

mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.

As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.


(E então, que quereis?... Vladímir Maiakóvski )

A morte rondando os céus


Os riscos fazem parte da vida dos seres humanos, frágeis diante das dificuldades e percalços a serem cumpridos. A todo instante se deparando com a sombra da morte e da agressão, as pessoas normalmente não percebem as inúmeras situações cotidianas onde a integridade física e mental é ameaçada, tantos os reflexos e condicionamentos que o sentido de auto-preservação proporciona. O homem tem por natureza defender-se e criar mecanismos de proteção decorrentes da consciência da destruição e pelo instinto de sobrevivência.


Aos perigos inerentes desta vida, somam-se os impostos pelas atitudes desmedidas e irresponsáveis de algumas pessoas, agressivas, inconseqüentes e maldosas, que agem como se nada lhes importasse que o próprio entretenimento, o desejo de se sobrepor aos demais e mesmo o dar vazão a instinto de destruição e sadismo. Aí se incluem os abusos nas brincadeiras infanto-juvenis, a perseguição sistemática a colegas de escola - o bulling -, as brigas de rua, a violência nos esportes e atitudes incompatíveis que levam risco aos demais.

O uso do cerol nas linhas de pipas bem que se enquadra entre as transgressões anormais que trazem seus efeitos altamente nocivos. Transformada de brincadeira de disputa pelos céus, o uso do cerol virou arma letal que se propaga na inconsciência de quem usa.

O uso de cerol em linhas de empinar é crime. Não há justificativa para que as pessoas continuem fazendo de um instrumento mortal uma brincadeira que provoca morte e lesões de alta gravidade. Não se pode esperar que a educação para a cidadania resolva a questão da consciência em curto prazo, uma vez que a ameaça está literalmente no ar. É preciso agir, fazer cumprir a lei, não por amostragem, mas com ações repressoras, blitze nos locais sobejamente conhecidos, apreensão de materiais, penalização dos responsáveis. Fazer vista grossa ou pensar que o cerol não passa de uma brincadeira inocente é deixar que o lúdico dê espaço ao trágico, somando mortes tão desnecessárias quanto a necessidade de afirmação através um brinquedo feito para colorir os céus e transmitir mensagem de paz e vida.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Soneto das doze e das dez sílabas

Descompassado, cruzo o espaço de teu tempo
Destemperado, forjo o tempo em teu espaço.
A noite cria formas, ao relento,
Descortinando anseios, que refaço.

A madureza desce e ao fruto tendo
Em tudo o que passei, a cada passo,
Desenterrando a messe, no seu tempo,
Num tempo que se mede sem espaço.

Mormaço. Feito d’aço. Sempre escasso.
Não descobri, não desvendei e nem desvendo.
Silencio de ti mesmo, em toque lasso.

Aquele mesmo toque, cor do vento,
Que não venta e cobra todo o espaço,
Quando a verdade eterna faz o tempo.

(Soneto das doze e das dez sílabas, Ives Gandra da Silva Martins)

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Dignidade além da fronteira

O colega Bruno Ribeiro postou no seu Botequim do Bruno um vídeo fantástico, da atitude corajosa e emblemática de uma jovem palestina em meio ao conflito na área de Gaza. Um silencioso e veemente apelo pela paz. Peço licença para compartilhar com meus leitores por aqui. Vale a pena assistir no link

http://www.cosmo.com.br/blog/blog_post.php?post_id=4657&blog_id=12

Agressão às minorias


Uma sociedade é tão evoluída quanto consegue harmonizar suas diferenças, espelhando as diferenças sociais, culturais e étnicas em um caminho pavimentado pela tolerância e pelo respeito entre as pessoas, promovendo ações comuns que contemplem todos os interesses sem distinção. O tratamento equânime é a segura regra que garante a igualdade de direitos e ganhos, sem que se faça julgamento prévio ou preconceito.


Diferenças raciais e religiosas costumam pautar atos de violência absoluta, na tradução na brutal da intransigência e da falta de diálogo, contrapondo culturas e tradições adversas, que dificultam a convivência para aqueles incapazes de admitir a possibilidade de outros serem apenas diferentes e com os mesmos direitos de exercer seus credos, atitudes e costumes transmitidos por gerações. Esses comportamentos deságuam em perigosos conflitos e exigem extraordinário esforço de intervenção para equilibrar os interesses e evitar males maiores.

A intransigência e a falta de um senso ajustado de civilidade pode produzir efeitos em escala menor, mas nem por isso menos trágicos. É o caso reincidente de jovens que se acobertam no anonimato dos grupos de relacionamento e passam a agredir pessoas que destoam de seu padrão. Têm sido notícia freqüente os casos de jovens de classe média que agridem brutalmente mendigos, prostitutas, índios e mesmo outros jovens, geralmente em eventos registrados na madrugada.

Em todos os eventos, é perceptível não apenas a crueldade expressa nas agressões, que extrapola qualquer limite da razão humana, mas a falta de um sentimento de culpa e responsabilidade, como se não fossem necessários o respeito e o cuidado com a integridade alheia. A consciência egocêntrica dos agressores mostra um lado perverso da educação atual, que privilegia a satisfação de impulsos a qualquer custo, o uso do meio como instrumento de realização pessoal e pouca interação humanista. Prevalece o individualismo em sua maior configuração, onde o vizinho é apenas coadjuvante.

Não raro, esses sentimentos são compartilhados pelos próprios pais, rápidos em minimizar os efeitos danosos do gestos dos filhos e as conseqüências de seus atos, como se espancar, atear fogo, atirar objetos ou mesmo ovos de sacadas de coberturas fossem brincadeiras inconseqüentes, inspiradas no horror da ficção Laranja Mecânica, ignorando que na extremidade oposta fossem outros seres humanos.

Esses gestos merecem o repúdio de toda a sociedade. Não são engraçados e nem se justificam os atos de barbárie que dissimulam o abandono a que foram relegados os jovens, ávidos por chamar a atenção ou projetar-se melhores do que devem ser. O nível de exigência sobre eles projeta valores e necessidades errados, distorcidos em uma visão de mundo pequena e desprezível. É preciso que a educação para a civilidade seja resgatada para extirpar a intolerância do meio social.

Almost Blue/Chet Baker


Almost blue
Almost doing things we used to do
There's a girl here and she's almost you
Almost

All the things that your eyes once promised
I see in hers too
Now your eyes are red from crying
Almost blue

Flirting with this disaster became me
It named me as the fool who only aimed to be
Almost blue

It's almost touching it will almost do
There's a part of me that's always true... always
Not all good things come to an end now, it is only a chosen few
I have seen such an unhappy couple

Almost me
Almost you
Almost blue

(Almost Blue, de Chet Baker)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A preparação para a Copa


A celebração esportiva de uma Copa do Mundo de Futebol, assim como a realização quadrienal das Olimpíadas, são momentos especiais que alteram a rotina das pessoas e colocam no centro das atenções todo o aparato e filosofia de transformação de que o esporte é capaz. Especialmente durante a realização dos eventos, as pessoas comuns têm a oportunidade de compartilhar expectativas, conhecimentos, experiências, alegrias e frustrações, que renovam a esperança de entendimento entre os povos e de uma convivência pacífica, onde a vitória ainda pode ser motivo de confraternização.


Ao anunciar que o Brasil sediará a Copa do Mundo de 2014, a Fifa abriu as portas para o resgate de uma das mais caras tradições brasileiras, a paixão pelo futebol e o envolvimento da massa de torcedores que vê na bola rolando e no grito de gol o lenitivo para as agruras da vida e a compensação pelas dificuldades enfrentadas no cotidiano. A plástica do esporte e a sua divulgação massiva fizeram com que o esporte das multidões consagrasse grandes nomes e clubes, ainda que o brilho esteja mais além das fronteiras do que dentro dos campos próximos. A Copa do Mundo, que normalmente paralisa o País em dias de jogos, poderá trazer de volta o carinho e identificação próprios de um esporte onde a torcida costuma ser fator importante para os resultados.

Não poderiam faltar críticos da escolha, sob suspeita da capacidade de organizar evento de tal porte e até pelo aproveitamento político do evento. Também não se pode supor que o Brasil seja muito pior que tantas outras possibilidades. O estigma de violência e corrupção encontra paralelos em vários outros países, havendo quem temesse a escolha da Alemanha para o evento passado. Com a realização dos Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro, o Brasil sinalizou com relativa competência para ser a sede provisória dos esportes mundiais. Não faltam empresas e profissionais competentes para fazer a parte da organização, planejamento, execução e administração. É de se temer apenas a excessiva ingerência política, para a qual estarão reservadas sinceras vaias.

Poema à luz da praça


Achei meu lugar no mundo
Para mim e meus fantasmas interiores
Agora sei porque estou aqui e a que venho.
A luz da lua reflete meus pensamentos
O álcool adianta os caminhos negros
Onde tenho que passar o meu tempo
Inexoravelmente...

O som do piano rebate nos muros
Traz a paz que procuro dentro de mim
Abrem-se as portas da percepção
Do id que não quer mais ser domado
As cadeiras descansam meus sonhos
Entre as janelas naturais do ser
Descontroladamente...

A água jorra nos cântaros sonoros
Em acordes dissonantes em sol
Que resplandece na noite escura
Esperando pela grossa chuva que cai
Fazendo a grama crescer em desespero
Como a lembrar que a vida sempre vem
Inexoravelmente...
Descontroladamente...
Decididamente...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Pra não dizer que não falei de Gaza

O conflito entre palestinos e israelenses assumiu uma grave proporção de horror, como somente a guerra pode trazer para empanar qualquer sentimento de grandeza do humanidade. O sangue que corre sobre a areia não aceita explicações e as vítimas são empilhadas sobre as páginas de acordos frustrados, de discursos apaziguadores, de protocolos de intenções que esquecem que o ser humano é movido por uma memória ancestral e atávica de violência.

A intolerância e a sede de vingança são o mote que levam aos atos de destruição. Ninguém tem razão e todos estão certos. Não há vencedores nem derrotados. Há uma chama de ódio que persiste acesa em meio a rezas a deuses que são vistos como vingadores, resgatadores de uma cidadania no Paraíso que não encontra esteio nesta vida.


A questão política é intrincada. Israel é um Estado legítimo, fruto da obstinada tentativa de manter unidos todos os seus filhos em diáspora. Um povo agredido, barbarizado, forjado na dificuldade, que luta pelo seu dia seguinte. Os palestinos perdem-se na própria dificuldade de articular o seu próprio Estado e sofrem nas mãos de um grupo fundamentalista político, que sopra o bafejo da morte para atiçar as chamas da discórdia.


A guerra de hoje compromete toda uma nova geração, que deverá amargar mais um longo tempo de intemperança, de desejo de vinganças. E o ciclo se repete sem que nenhuma das partes consiga superar-se e abrir uma mesa de diálogo, capaz de cobrir de areia as marcas sangrentas do passado para construir um futuro de paz, em nome de tantas crianças massacradas pelos estilhaços da intolerância.


God only knows

I may not always love you
But long as there are stars above you
You never need to doubt it
I'll make you so sure about it

God only knows what I'd be without you

If you should ever leave me
Though life would still go on believe me
The world could show nothing to me
So what good would living do me

God only knows what I'd be without you

(God Only Knows, The Beach Boys)

Ética do cidadão para moralizar a política


Diz-se que o Congresso Nacional é o espelho da sociedade, com todas as suas contradições e conflitos, refletindo o que de melhor e pior existe no País. É inegável que todos os grupos encontram entre os parlamentares sua representação legítima, em maior ou menor peso, com o poder sendo distribuído de acordo com o nível de articulação política.


O atual nível de descrédito dos políticos tem origem em fatos concretos e exacerbados pelo calor do período eleitoral. A sucessão de escândalos no atual governo fez sangrar a ferida aberta do inconformismo, da intolerância, e o brado pela ética ecoa forte pelo desejo de dar um basta a um sistema pautado por comportamentos que fogem à ética comum do cidadão.

Generalizar o mau-caratismo de alguns é uma agressão ao processo democrático. Em qualquer meio encontram-se bons e maus, e o Congresso não é exceção. Mas espera-se que esta turbulência marcada pela corrupção desenfreada seja apenas um momento, um desvio de função que pode ser corrigido pelo timão poderoso do voto, já nas próximas eleições.

As Câmaras Municipais são, em projeção, a célula da representação do Poder Legislativo. Nelas respingam as acusações, os desvios da ética partidária, o julgamento das atitudes de deputados e senadores. Se o caráter funcional traz para o nível do município as atribuições dos políticos, pode-se inferir que, nas bases, o sistema de financiamento de campanhas e aliciamento de votos de bancadas siga os mesmos passos. Daí a necessidade de extremar o rigor com as questões da ética.

Em essência, a elite política guindada ao poder deveria conter, por pressuposto, a idoneidade e a correção de caráter. Como, na prática, não é assim que ocorre, as tentativas de impor normas de comportamento esbarram em absurdos, vícios legais que empanam a iniciativa. Basta pinçar alguns preceitos do projeto proposto pela Câmara local para ver que a necessidade de limites extrapola o bom senso. “Exercer o mandato com dignidade e respeito à coisa pública”, “não fraudar as votações em plenário”, “não receber vantagens indevidas”, “evitar a utilização dos recursos e pessoal (...) em atividade de intersse particular”, são exemplos de normas que, de tão óbvias e consensuais, nem mereceriam citação em matéria legal.

A defesa da moral é, hoje, principalmente, a maior bandeira que o eleitorado espera da classe política. Antes de levantar proposituras demagógicas, os políticos deveriam fazer valer o seu legítimo papel de representantes do povo e agir de acordo com a ética do cidadão. Mais do que isto, deve ser penalizado com o rigor da lei e a sentença das urnas.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Die Freude (Ode to Joy - Ode à Alegria)



Oh amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais prazeroso
E mais alegre!

(Barítonos, quarteto e coro)
Alegre, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu.
Todos os homens se irmanam
Ali onde teu doce vôo se detém.
Quem já conseguiu o maior tesouro
De ser o amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma mulher amável
Rejubile-se conosco!
Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma,
Uma única em todo o mundo.
Mas aquele que falhou nisso
Que fique chorando sozinho!

Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até a morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!

(Tenor solo e coro)
Alegremente, como seus sóis corram
Através do esplêndido espaço celeste
Se expressem, irmãos, em seus caminhos,
Alegremente como o herói diante da vitória.

(Coro)
Alegre, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos, além do céu estrelado
Mora um Pai Amado.
Milhões se deprimem diante Dele?
Mundo, você percebe seu Criador?
Procure-o mais acima do céu estrelado!
Sobre as estrelas onde Ele mora.

(Ode à Alegria, de Friedrich von Schiller, tradução do original, tal como se canta na Nona Sinfonia de Ludwig Van Beethoven.)

O risco para motociclistas


Acidentes de trânsito acontecem por imperícia dos motoristas ou pela má conservação dos veículos. Por mais desenvolvida que seja a tecnologia sobre rodas, o fator humano dá a proporção de mortes e lesões graves, numa cruel estatística que expõe a fragilidade de todos os sistemas de segurança diante da imprudência e irresponsabilidade.


Em se tratando de motociclistas, o risco é multiplicado pela própria exposição do piloto, que se lesiona em 69% dos casos de acidentes, enquanto em carros o índice não passa de 15%. A natureza da condução de motocicletas é suficiente para sugerir uma regulamentação diferenciada para o setor, visando proteger os condutores e trazer um pouco de paz no trânsito.

Várias são as causas apontadas por especialistas para o alto risco de acidentes. A característica altamente vulnerável do veículo é, por óbvio, agravante em qualquer análise de segurança. Mas há que se considerar o amplo contingente de pilotos recém habilitados, sem domínio completo do equilíbrio dinâmico da moto. O resultado é invariavelmente o tombo, algumas vezes sem maiores conseqüências.

Neste quadro, destaca-se a função do motoboy, profissional apontado como o grande vilão do problema e responsáveis pela confusão no já caótico trânsito das grandes cidades. Alguns fatores agravam a situação dos entregadores expressos sobre duas rodas: normalmente, muitas motocicletas utilizadas no serviço estão à beira do sucateamento; e não há como negar que o comportamento deles ao conduzir o veículo não é nenhuma referência de direção defensiva. São imprudentes e agressivos.

O fato de haver uma carga desumana de trabalho para estes profissionais não atenua a gravidade da ação deles no trânsito. Há ainda empresas que propagam com orgulho que as entregas em domicílio são feitas com rapidez extrema, forçando a que estes motociclistas se superem em agressões ao código de trânsito para cumprir suas tarefas.

A anunciada regulamentação do setor, prevista para meados de março pelo Secretário de Transportes, deve contemplar uma razoável e necessária discussão sobre uso de equipamentos completos de segurança individual, bom estado de conservação dos veículos, cadastramento das empresas prestadoras de serviço de transporte, trabalho de reciclagem educativa sobre normas de trânsito.

Mais do que isto, todo esforço neste sentido deve contribuir para a mudança de um conceito inadmissível: o trânsito não é uma guerra, é um palco de convivência que, assim como tantos outros, deve ser normatizado pelo respeito, tolerância e pela busca constante da paz.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A agonia de Fidel

Em pleno paraíso do Caribe, a pequena ilha de Cuba assume uma grandiosidade inigualável perante o mundo. Limitada ao comum no tamanho, importância econômica e cultura, foi projetada na importância por se tornar o primeiro país alinhado ao socialismo soviético na América, a poucas milhas do declarado inimigo ianque. Com um passado histórico relevante, desde a recepção a Cristóvão Colombo em sua aventura desbravadora do Novo Mundo, sua população foi envolvida na torrente de interesses políticos que marcaram as décadas de 50 a 80.
Derrubado o Muro de Berlim, dissolvida a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e distendida a relação entre os países em nome de uma nova ordem mundial, o regime cubano se manteve intacto, pétreo, fechado intransigentemente a quaisquer ingerências em favor de uma abertura política, econômica e até mesmo cultural. Com regras rígidas que impõem severas restrições à liberdade, Cuba cercou-se de barreiras ideológicas por todos os lados, tornando-se uma ilha de intransigência e intolerância que custou pesado ônus para a população. O símbolo deste país é Fidel Castro.


A sua eficácia em estabelecer expressivas metas sociais incontestáveis nas áreas de Saúde e Educação, principalmente, desgastou-se com o isolamento político e econômico decorrente da supressão dos subsídios soviéticos e da incapacidade de gerar recursos próprios em sua diminuta economia de mercado. Cuba se fechou e todas as portas foram cerradas como para demonstrar que o modelo desenvolvido não poderia vingar para servir a outros países. Os adversários do regime foram presos, mortos, expulsos ou fugiram, na marca ditatorial mais negativa de Fidel.
Depois de 47 anos no poder, o grande líder finalmente adoeceu à véspera dos 80 anos, despertando em todo o mundo o sinal de alerta quanto ao destino da ilha, um reduto comunista que resistiu a todas as pressões exclusivamente pelo carisma e força exercidos pelo ditador. A comunidade mundial especula, diante da possibilidade de sua morte, quais os caminhos que poderão ser percorridos ao final da era Castro.


A própria comunidade cubana que vive fora, notadamente em Miami, cogita uma invasão pacífica ao seu país, na tentativa de reconstruir o país, em molde de preservação sua identidade, cultura, benefícios sociais, abrindo-se para a economia de mercado e para o mundo moderno.
Sabe-se que dificilmente alguém poderá trilhar o mesmo caminho de poder e influência que o velho Fidel. A briga pelo poder deixará sequelas e o país caminhará, inexoravelmente, para um tempo de modernidade e abertura. Os passos a serem cumpridos ainda são misteriosos, mas está na hora do povo cubano acordar para a realidade de que o sonho de igualdade que foi criado teve o seu momento, sua história e sua emoção. O despertar pode ser amargo, mas se tornará suportável com o sopro de liberdade que invadirá novamente as praias e subirá as montanhas, até a hora de descer e traçar um novo destino para Cuba.


A Hard Rain's A-Gonna Fall

Oh, where have you been, my blue-eyed son?
Oh, where have you been, my darling young one?
I've stumbled on the side of twelve misty mountains,
I've walked and I've crawled on six crooked highways,
I've stepped in the middle of seven sad forests,
I've been out in front of a dozen dead oceans,
I've been ten thousand miles in the mouth of a graveyard,
And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, and it's a hard,
And it's a hard rain's a-gonna fall.

Oh, what did you see, my blue-eyed son?
Oh, what did you see, my darling young one?
I saw a newborn baby with wild wolves all around it
I saw a highway of diamonds with nobody on it,
I saw a black branch with blood that kept drippin',
I saw a room full of men with their hammers a-bleedin',
I saw a white ladder all covered with water,
I saw ten thousand talkers whose tongues were all broken,
I saw guns and sharp swords in the hands of young children,
And it's a hard, and it's a hard, it's a hard, it's a hard,
And it's a hard rain's a-gonna fall.


(Trecho de A hard rain's a-gonna fall, Bob Dylan)

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

A idéia, ou melhor, agora, ideia


De onde ela vem?!
De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!
Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica ...

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica.

(A Ideia, Augusto dos Anjos)

Call centers na mira do consumidor


Os sistemas de atendimento ao consumidor foram incorporados na rotina das maiores empresas, resultando em ganhos para as empresas, que têm a oportunidade de retorno do grau de satisfação de seus clientes e podem promover mudanças de rumo e de projetos a partir de informações preciosas, além de corrigir falhas e defeitos que muitas vezes somente podem ser observados por usuários ou consumidores. Para facilitar essa interação, os serviços de call centers se multiplicaram e incorporaram técnicas e tecnologia modernas, dando forma para deixar canais de comunicação plenamente abertos.


Com a maior extensão do atendimento, os serviços passaram a ser terceirizados e muitas empresas não deram conta da intensa demanda criada a partir da implantação do sistema. O que seria um fator de integração e aproximação entre empresas e clientes passou a ser um problema e uma dor de cabeça para ambos os lados. As reclamações aumentaram, os serviços se sucatearam, grupos mal intencionados criaram empecilhos para atender reclamações ou cancelamentos, e o resultado foi o acúmulo recorde de queixas registradas nos órgãos de defesa do consumidor.

A nova lei que disciplina o setor, que entrou em vigor no início de dezembro último, trouxe um alento. As empresas de call center passaram a ser obrigadas a atender com eficiência e rapidez, disponibilizando informações e serviços de forma respeitosa. Um balanço das primeiras semanas, publicado na edição de ontem do Correio Popular, mostra que no Procon de Campinas houve uma redução no número de queixas contra os serviços de atendimento ao consumidor.

Mesmo em curto espaço de tempo e considerando o período excepcional do ano, os números apontam para um efeito positivo da lei no primeiro momento. As empresas demonstraram preocupação em se adaptar às novas regras e a expectativa é que o aperfeiçoamento do sistema seja a regra, antes que os problemas voltem a acontecer no esfriamento da fiscalização.

O respeito ao consumidor é um dos pontos de garantia das empresas que buscam fidelizar seus clientes através do oferecimento de produtos de alta qualidade, com preços compatíveis, serviços de suporte e garantia perfeitos, além de um sistema logístico funcional de distribuição. O crédito computado ao longo dos anos se reverte na valorização do produto, no grau de confiança que os consumidores depositam na empresa, na manutenção de um mercado cativo e fiel que se identifica com a marca, a ponto de estabelecer uma relação altamente interativa. As empresas, em maior ou menor grau, dedicam grande parte de seus esforços para criar um sistema de atendimento que garanta a satisfação de seus clientes, auferindo com isto dividendos em respeito mútuo e prestígio no mercado.

É importante que as empresas se enquadrem nos novos procedimentos, se não pelo princípio elementar de respeito a seus consumidores, ao menos pelo simples fato de que o afastamento destes preceitos pode representar prejuízos irrecorríveis.

(Editorial Correio Popular, 6/1)

domingo, 4 de janeiro de 2009

Um sinal de que pouco mudou


Está se tornando extremamente grave o estado rejeição que os políticos enfrentam por parte da população, em grande parte afrontada com práticas de desonestidade, de total desrespeito às instituições, de desafio à moral e à ética, que se tornaram bens preciosos e raros no meio político. Para muitos, o limite já foi ultrapassado e o desconforto com a arrogância dos maus toma forma de uma rejeição que beira o asco.


É possível perceber um processo de transformação e qualificação da sociedade, sobressaltada com tantas denúncias de corrupção, de mau uso do dinheiro público, da exploração de vantagens no meio político. É uma transformação lenta, talvez desapercebida pelo eleitor menos informado, que ainda deposita seu voto de confiança em candidatos que não mereceriam sequer a legenda que os partidos lhes outorgam. Mas ainda persiste a expectativa renovada a cada eleição de que importantes passos são dados no sentido de uma plenitude democrática e uma representação política mais que legítima, mas também qualificada, bem intencionada e calçada em conceitos absolutos de ética e moral.

A Câmara Municipal de Campinas deu, nos quatro últimos anos, inúmeros exemplos de como a classe política pode ser inoperante, cercada de irregularidades, distante dos eleitores, falsa em seus propósitos, desonesta na aplicação de seus direitos. Não faltaram denúncias de desvio de verbas, contratações irregulares, negociações espúrias, tudo abafado pelo corporativismo infame que joga para baixo dos tapetes a sujeira respingada da lama nos bastidores.

As eleições de 2008 mostraram claramente a intenção de renovação, com troca significativa dos vereadores, ainda que restassem alguns espectros da má política que se instalou nos poderes. A expectativa era de uma mudança de posturas, uma nova forma de fazer política, uma mentalidade que priorizasse o município e a região com suas prioridades, sepultando a prática clientelista e deseducativa da compra de votos ou o uso sistemático de favorecimentos para obter votos. Veio a posse da nova Câmara e frustraram-se as melhores esperanças.

O primeiro sinal emitido do plenário na abertura da nova legislatura é que Campinas terá mais do mesmo. A re-eleição de Aurélio Cláudio para a presidência da Casa dá a entender que, mais uma vez, devem prevalecer os procedimentos que se esperava sepultados. Perdem os vereadores a oportunidade de mostrarem uma nova postura de independência, reafirmando os compromissos de respeito aos eleitores e de atenção aos interesses da comunidade.

A recondução de Aurélio à chefia dos trabalhos somente acontece por estranha costura de interesses nos bastidores, o que eleva a temperatura política para os próximos dois anos, quando a sociedade deverá estar pronta e atenta para fiscalizar os trabalhos legislativos dos antigos, que já deram mostras do que são capazes de fazer, dos novos que chegam negando a oportunidade de renovação que estava em suas mãos, e dos antigos oposicionistas, agora apoiadores, que terão que se esforçar para justificar a troca de posições, como que troca um paletó por outro muito mais apertado.

(Editorial Correio Popular, 4/1)

Homenagem ao malandro


Eu fui fazer um samba em homenagem
à nata da malandragem, que conheço de outros carnavais.
Eu fui à Lapa e perdi a viagem,
que aquela tal malandragem não existe mais.

Agora já não é normal, o que dá de malandro
regular profissional, malandro com o aparato de malandro oficial,
malandro candidato a malandro federal, malandro com retrato na coluna social;
malandro com contrato, com gravata e capital, que nunca se dá mal.

Mas o malandro para valer, não espalha,
aposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal.
Dizem as más línguas que ele até trabalha,
Mora lá longe chacoalha, no trem da Central


(Homenagem Ao Malandro, Chico Buarque)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

A questão da água


O imaginário popular tem o Brasil como um país rico em mananciais, com recursos hídricos invejavelmente distribuídos na maior parte de seu território, com amplas possibilidades de exploração e destinação. Como uma fonte inesgotável de energia e abastecimento, as possibilidades de desenvolvimento seriam enormes e o pretendido salto para o futuro apenas não se deu por falta de oportunidades concretas de alçar vôos em direção ao Primeiro Mundo. Da terra onde “em se plantando, tudo dá” à realidade de quinhentos anos depois, existe a premente necessidade de implementar o conceito de sustentabilidade que já expõe carências jamais imaginadas antes.


A preocupação com o esgotamento dos recursos naturais é uma constante, a exigir políticas públicas e campanhas educativas para disciplinar o uso consciente e a busca constante da racionalização no consumo de água. São alarmantes os indicadores que apontam para o esvaziamento dos mananciais, que diminuem na proporção indireta em que aumento o consumo pela expansão industrial e pelo adensamento demográfico. Há vários esforços no sentido de tornar pública a responsabilidade sobre o uso e reuso de água, além de fatores coercitivos para os abusos, como a cobrança e multas contra o desperdício.

O uso racional da água absorve hoje tecnologia de ponta para o controle de perdas e do desperdício. O próprio reuso é questão de domínio e as empresas têm consciência do custo crescente da matéria-prima. Mas o limites já se apresentam e o próprio desenvolvimento regional pode ser drasticamente abalado se não se adotarem medidas de revalidação dos acordos da outorga do Sistema Cantareira, eliminando a dependência do regime de chuvas e do nível de reservatórios.

O problema ainda não atingiu diretamente o consumidor particular. As medidas de administração e contenção têm feito o sistema perdurar, sem a necessidade de cortes drásticos de fornecimento. A conscientização e a redução do consumo são óbvias etapas a serem cumpridas com urgência, para o que as novas gerações parecem estar razoavelmente preparadas e alertadas. Mas se não houver um esforço unificado em todos os níveis, o pesadelo da falta de água pode incomodar muito antes do que previam os mais pessimistas.